BAILE MUDERNO E A MÚSICA BAIANA ATUAL: uma questão de identidade

                                
         Foto do Bar e casa de Shows Bataclan em Ilhéus. O Bataclan era um antigo prostíbulo da cidade.

Na última sexta-feira, na Avenida Dois de Julho, Bataclan, antigo ponto de prostituição ocorreu mais um evento do projeto Baile Muderno da Bahia. Com patrocínio da Secretaria de Cultura o Baile prometia. À tarde, na Fundação Cultural houve palestras e oficinas com músicos como o Chico Correa, DJ da Paraíba, DJ Bandido e a banda baiana O Quadro. A negritude nunca mais será a mesma. Ou será melhor depois dessa.
    Realizado em um dos lugares mais históricos da cidade histórica e Ilheus (no Bataclan) a festa teve design da jovem Potira Castro e a presença das bandas já citadas. O evento que acontece no Bataclan (lugar que mistura tendências do Modernismo, Romantismo, etc. ) a festa teve toque de Pós-Modernismo e muito bom gosto. Bom gosto hoje significa a linguagem do movimento do século XXI, a mistura interetnica e a crítica aos valores mais mesquinhos da nossa sociedade, assim como um discurso aplicado ao que há de mais saboroso em nossa história: depois de toda mistura : o que somos de fato? Parabéns aos organizadores!
    Não sou competente para formular uma crítica aos cantores. Comecei a escrever e avaliar a música negra a pouco tempo. Como músico clássico desde criança vou realizar uma crítica como um crítico do Pós-Modernismo musical. Se Mozart me ouvisse falando sobre a mistura feita pelo Chico Correa na festa, por exemplo, acharia bem legal, embora nosso jovem alemão estivesse uns séculos atrasado. Chico Correa misturou temas do Nordeste ( da Paraíba, Chico é paraibano) com o que há de mais moderno e incomensurável na música atual- a música eletrônica. Mas Chico que agradeça ao atrasado, porém inovador Mozart. Precisamos de gente inovadora assim. O DJ bandido balançou os nossos ouvidos. Como medir as dissonâncias feitas por ele em sua música. É incomensurável. Esse é o grande valor da música negra e baiana atual- é incomensurável por não obedecer a leis toscas e autoritárias da elite musical e falar do que há de mais honesto: a realidade social.
   E o que falar da banda O QUADRO. A banda Ilheense que acaba de gravar seu primeiro DVD é composta por negros discursivamente de esquerda. O que significa ser DE ESQUERDA em se falando da banda O QUADRO? Significa não repetir as leis do dominante europeu, da alta elite francesa do saber, da linguagem idealizada dos gramáticos utopistas e se reconhecer negro numa sociedade mestiça onde a maioria deseja assistir Novela da Globo e se vestir conforme à última moda de Paris, usando sempre um Christian Lacroix. Do que adianta se sentir rico e branco quando temos um país infinitamente mestiço e musticultural onde o índice de analfabetismo e desigualdade surpreende a cada ano. Dá-lhe O QUADRO. O QUADRO é exemplo de Cultura do mais novo mundo. A música clássica fica cada vez mais arcaica diante da negritude e beleza de O QUADRO. O QUADRO não se importa com a força da tradição melódica da música. Para os que gostam de ouvir músicas infantis e se emocionar com uma melodia óbvia, CHAME A POLÍCIA DA MÚSICA. Lá vem a nova música baiana. Ela é negra, tanto quanto a Bahia. Só que dessa vez a negritude acompanha a mais nova tendência artística do mundo: o movimento, midiatismo e inteligência do Pós-Modernismo. A melodia é um protesto ao desrespeito de nossa sociedade preconceituosa a forma de vestir, às convenções pobres de espírito e ao paradigmatismo hipócrita. Não entendeu as últimas palavras da crítica? Basta observar o estereótipo, o clichê que a sociedade faz: as pessoas "de bem" devem se vestir dessa forma, falar dessa forma e se comportar dessa forma. Quer mais: vocês vivem repetindo a linguagem dominante porque do contrário estarão "falando errado".  Isso sim é não ter senso político.A música da banda O QUADRO usa harmonias descendentes das de Korsakov (compositor da desconstruçao clássica) e, falando em desconstrução - por que não lembrar da desconstrução musical do nosso Heitor de Vila Lobos. Enquadrada aí está a música de O QUADRO- melodias que chocam, com intensidade musical de protesto e crítica social igualmente postuladas. Como um músico clássico, admirador da música de Beethoven que sou, estou claramente impressionado: a música baiana nunca deu passos tão bem dados em direção a saber quem somos de fato- mestiços sociais.
   Matem-se os tradicionalistas e pessoas "de bem". É por uma questão de identidade que estou aqui. Ao menos de identidade musical.


GABRIEL NASCIMENTO, músico desde criança, descendente de uma família de músicos


 
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